Em 2016, nossa amiga Claudia Toni passou pelo Ilumina para conversar com nossos participantes e compartilhar suas idéias sobre a música no Brasil, e falar do que o futuro precisa. Leia esse papo descontraído abaixo! Uma leitura longa que vale muito a pena e que vai mudar como você pensa a música...


Claudia: Há dois anos, o SESC fez uma pesquisa no Estado de São Paulo, em 23 cidades, que é uma amostragem gigante. Só 12% da população do Estado de São Paulo – e São Paulo é um Estado rico, com mais oportunidades – tinha ido a um concerto. Num estado de 42 milhões, quer dizer 4 milhões de pessoas. Então a gente tem muito serviço para fazer – tem muito trabalho. E muito trabalho em orquestras que não se pareçam com um exército. Em orquestras que acolham a comunidade, que saiam para tocar, que inventem coisas. Mas isso só sai da cabeça de músico que faz mais do que tocar. Que faz mais do que obedecer o maestro. Que faz mais do que ler só sobre a história da música. É difícil. É. Mas tudo é difícil. Aprender violino deve ser dificílimo. Eu nunca aprendi, mas deve ser o cão! O cão, ficar estudando horas uma maldita de uma escala. Faz calo, sangra. Não é pior ler um bom livro e entender o que está acontecendo. Ler o jornal todo dia ou ir na internet ler um artigo não tira pedaço.

E vocês vão ser melhores músicos. Só assim vocês vão mudar o Brasil. Músico que não pensa não vai mudar a música do Brasil. Nenhum dos colegas de vocês que está aqui convidado é um ser parado no mundo. A gente pode pegar o caso bem claro do Joseph, que não pára de inventar coisa para ajudar quem não tem nada. E é por isso que a Jennifer fez o Ilumina. Não tem ninguém de vocês aqui que não precise de ajuda. Não de ajuda material. De ajuda para crescer, para ser profissional. Agora, para a gente ser isso, para a gente concluir isso, a gente precisa pensar. Claro que pensar ajuda, mas pensar tem que estar ancorado também em ler. Tem que saber o que os outros escreveram. Tem que ouvir música do tempo da gente. Não precisa ouvir só Tchaikovsky porque também o espírito embota. Tem que saber que tem gente escrevendo música. Difícil de assimilar, mas nem por isso a gente vai deixar ela de lado.

Tem uma história boa sobre isso. Quando eu trabalhava na OSESP e a gente ficava no Teatro São Pedro, o teatro era tão pequeno que no intervalo a gente ficava na rua, porque aquele hall do Teatro São Pedro era muito apertado. Eu estava na calçada e chegou uma velhinha, velhinha, e falou assim:

– A senhora trabalha aqui?
– Trabalho.
– A senhora pode dar um recado para o maestro?
– Posso.
– Esse Bruno Maderna, que ele pôs no programa de hoje, eu detesto. Eu nunca vou comprar um disco do Bruno Maderna. Nunca! Se tocar Bruno Maderna na Rádio Cultura, vou desligar! Mas a senhora fala pra ele que ele tem que continuar pondo Bruno Maderna, porque o Bruno Maderna é um compositor do meu tempo. É problema meu que eu não goste dele. Ele tem que continuar pondo.

Então a gente tem que lembrar disso – que a gente tem que estar atento ao que está acontecendo hoje, ao que os homens estão vivendo hoje.  E tem que ir atrás. Finalmente, a pergunta tem que ser a seguinte: O que os brasileiros têm para dividir, para compartilhar com o mundo, e o que você acha que é a responsabilidade deles em relação a isso? Eu acho que vocês têm uma coisa que a Europa, que o Norte perdeu, que é o frescor. Que é a paixão. A música para vocês é uma questão de vida ou morte. E eu acho que para muito de vocês deve ter sido de vida ou morte de fato. Não é só um eufemismo. Isso as pessoas do Norte já esqueceram.

A Sacha disse para mim: “A Europa é muito fria. Ninguém toma conta de você. As relações são muito frias”. Eu acho que pode ser que a gente fique assim. Porque eu acho que as sociedades muito desenvolvidas vão fazendo com que os seres humanos fiquem muito fechados, muito enclausurados, muito preocupados com eles próprios. Mas eu acho que a gente tem que fazer tudo que a gente puder para evitar isso. E é o Sul do mundo. Eu não vou ter a pretensão de dizer que é só o Brasil. Porque a gente infelizmente conhece pouco da África, conhece pouco da América do Sul. E todas as experiências que eu tive, fazendo o que eu faço, na América do Sul, eu vi esse calor, essa vontade, essa questão de vida ou morte – que fazer música é vida ou morte.

Então eu acho que o que vocês têm para contar para as pessoas é que ainda é possível gostar imensamente de música, e se isso tudo fosse verdade vocês não estariam aqui. É possível ensinar para os outros o que quer dizer gostar assim de música. Porque é por isso que o Joseph voltou, que a Sacha voltou. E é por isso que a Jennifer não desiste de vocês. Ela podia dar aula para um bando de gringo facinho. Que não têm problema de baixar o arco, que a força está dividida nos três pontos, não é assim? Lá muitos não devem ter esse problema. Era facinho de fazer o Ilumina lá. Arrumava patrocinador assim, tinha uma fazenda rica com garçom... Mas essa não foi a opção dela. Por quê? Porque vocês oferecem para ela alguma coisa que ela sabe que os músicos de lá não têm, ainda que sejam jovens como vocês. E isso é paixão, é vontade de crescer, é vontade de dizer – Com isso eu vou poder dar para a minha mãe uma casa melhor, mas eu também vou ser muito mais feliz. São atributos que vocês têm, e que a gente não acha mais fora daqui. Talvez porque a vida seja fácil demais. Eu conheço uma grande educadora musical estrangeira que me disse – Eles não sabem o que é ser pobre, lá na minha cidade, Gateshead. Lá todo mundo tem tênis.

São contextos diferentes. Mas esses contextos fizeram da gente gente muito diferente. Tá brigando todo tempo para fazer. Tá brigando todo tempo para fazer melhor. Mas como eu acho também que só o monólogo é muito chato, vocês poderiam falar um pouco. Quem tem vontade? Guilherme, você que está fora daqui, não quer começar? Você que está estudando fora, você observou alguma coisa?

Guilherme: Eu acho que tudo que você falou é exatamente o que eu sinto. Realmente, quando a gente vai para lá, a gente percebe que eles não têm a mesma paixão pela música que a gente tem aqui. Essa questão de vida ou morte que você falou. Tem gente que toca muito bem, faz tudo certo com o instrumento. Mas não tem mágica quando a pessoa toca. E aí fica faltando alguma coisa. Dá para perceber muito isso lá. Não é todo mundo, claro. Mas muita gente tem esse problema lá.

Nathan: Eu acho que além disso, o que contribui para a nossa música ser valorizada, no sentido do Brasil, é justamente a história de cada um. Foi o que a gente falou ontem numa conversa que teve com os artistas. Eles falaram que é justamente o seu histórico que faz a música que você toca. O que você viveu, o país, a sua origem, os seus familiares. Tudo influencia a maneira que você toca. O seu som vai depender da sua história. E eu acho que nisso a gente tem um pouco mais a contribuir. Em diferentes sentidos. Não estou querendo dizer que eles não têm nada.

Davi: Eu tive a grande sorte de que o meu primeiro professor, na Escola Municipal de Música, foi o Marco António Bruckner. E logo na primeira aula ele olhou para mim e falou – Davi, eu não quero você apenas saiba tocar contrabaixo. Eu quero que você saiba cozinhar, saiba sobre política, saiba sobre futebol, filosofia, física, química. E ele falou que ele mesmo fez engenharia mecânica depois de ter estudado em Praga. Ele falou – Isso vai te ajudar muito a te fazer um músico melhor. E isso ficou gravado dentro de mim até hoje. E eu identifiquei isso no Joseph. E eu sou um grande fã dele, porque ele não apenas sabe tocar contrabaixo, mas as coisas que ele absorve de fora, o conhecimento que ele tem, faz com que o som do contrabaixo se torne muito mais bonito. Tem mais sentido no que ele faz.

Nathan: Isso é tão verdade, que eu conheço um professor, que estudou na mesma classe que Itzhak Perlman, na Juilliard, e ele fez também faculdade de psiquiatria.

Claudia: Médico. Médico psiquiatra. E as moças? Vocês são minoria aqui, não me dêem esse vexame. As quatro têm que valer por quarenta. (Risos)

Marcela: Eu acho que a nossa parte é maior do que a gente pensa. Querendo ou não a gente passa uma dificuldade, aqui no Brasil. A gente para comprar instrumento, para comprar corda. Quantos pais aqui apóiam? É muito difícil. A minha mãe mesmo, quando eu comecei a tocar, falou – Vai fazer alguma coisa da vida! A minha família inteira. Uma tia minha me desdenhou muito, falando – Você acha que você vai chegar aonde? E hoje, vendo eu tocando numa sala de concertos, tocando numa orquestra, já muda muito. Então, graças a deus, eu consegui, estou conseguido aos poucos, mas muita gente não tem essa oportunidade. Mas eu acho que essa paixão que a gente têm é por isso, por tudo que a gente passa – para comprar o instrumento, para ter um professor bom, para entrar numa escola de música...

Claudia: Quando eu era menina, as pessoas me perguntavam:
– Seu pai faz o quê?
– Meu pai é músico
– Sim, mas qual é a profissão dele?
– Ele é músico!
– Mas ele vive do quê?!

Eu quero dizer, a nossa vida foi muito difícil. Ele arrumou trabalho, virou professor. Mas nossa vida foi muito pobre. Mas eu não perdi nada por isso. Eu só ganhei! O que eu quero que fique bem claro é que tudo isso é bom. Tudo isso acrescenta. Tudo isso vai fazer de vocês músicos brilhantes, mas vai fazer de vocês professores brilhantes. O segredo é – Como é que eu transformo isso em um jeito de me relacionar com os outros? Eu estava vendo a sessão da Tai, em que vocês ofereceram para ela um problema de arco. Que exercício eu faço para melhorar? E ela falou – Não sei, mas vamos tentar. E ela criou lá, para vocês, uma hipótese de um exercício. Talvez isso possa ajudar. Porque é esse o olho da pessoa para quem nada caiu do céu. Eu falo para as pessoas, e elas ficam assustadas – No primeiro mundo, ser músico é profissão de classe média, classe média-alta. Porque paga bem. Então o pai quer que o filho seja músico. Porque ele vai trabalhar numa orquestra grande, vai dar aula numa universidade, e vai ganhar bem. Aqui, não. O pai da classe média-alta não quer que o filho seja músico porque o filho vai ganhar mal. Então não quer que o filho aprenda um instrumento. Mas acontece que esse movimento que foi crescendo, de uma educação musical mais democrática, que acho que é a única educação democrática que nós temos no Brasil efetivamente, fez com que aparecesse um grupo apaixonado por fazer música.

Eu quero fazer também um comentário sobre educação democrática. Quando eu fui para a escola, minha mãe era professora do primário, e eu fui estudar num grupo escolar, que era uma escola pública. Chamava Grupo, Ginásio e Clássico. E eram escolas primorosas. Era melhor do que são as escolas privadas de hoje. Muito melhores. E a minha mãe diz – Escola pública hoje é uma vergonha, no meu tempo é que era bom. No tempo dela era boa porque só 20% da população ia para a escola. Então era fácil ser boa. Só que no fim dos anos 70, começo dos anos 80, gente de todas as facções políticas do Brasil disseram – tem que acabar essa história. Escola tem que ser para 100%. E a questão era – Mas com que professor e em que prédio? Não importa. O que importa é pôr eles para dentro da escola. Se eles forem para a escola, eles vão aprender a escovar o dente, vão conviver com os colegas, vão comer duas refeições, e não importa se for escola com três turnos, que cada turno tenha só três horas de aula. Eles vão para um lugar onde eles vão se socializar. E pouco a pouco a gente vai consertar. Vai melhorar professor, vai ter mais prédio. Essa receita não está dando totalmente certo já. Mas ela vai dar certo. Porque ela já é muito melhor. Porque 96% da população do Brasil já vai para a escola. É para essa escola capenga, mas entre 1980, que ia 20% da população, e 2015, que vai 96% da população, a gente melhorou um montão. É como o SUS. O SUS é ruim? Sim. Mas não tinha SUS. Agora tem. O que a gente tem que fazer? Melhorar ele.

Igualzinho para música. Era nada! Era um pântano! Ensinava o italiano que tinha vindo na guerra, que ensinou meu pai a tocar fagote. E foi melhorando. E vai ficar melhor! Mas são vocês que vão ter que fazer ficar melhor. E vão ter que fazer ela melhor, mas vão ter que dar um passo adiante do que existe agora. E isso quer dizer – Saber mais do que só música. Mais do que saber ler nota. Mais do que só saber tocar. Tem que aprender a ensinar. Tem que aprender a ouvir música. Eu tenho uma irmã que dá aula de música na USP, e ela pede para o aluno tocar alto o que está no telefone, para saber o que eles estão escutando. Ela fala – Mas por que que só tem essa porcaria no seu telefone? Você não ouve música? Como é que tem músico que não ouve música? Tem que ouvir. Porque é isso que cresce. Tem que aprender a ensinar.

Essas são as coisas que eu queria falar. Eu não sou a dona da verdade, mas essas são só as minhas observações de quem trabalha há 43 anos nessa mesma área. Então eu acho que a gente poderia estar mais para frente, se os músicos tivessem feito mais por eles próprios. Esperar que o maestra conceda, que o diretor tire o dedo, que o prefeito ajude... essa não é uma receita de sucesso. A receita de sucesso é a receita que a gente vai ajudar a mudar. Porque é assim que dá certo. É difícil? É! Não é simples mesmo, não. Pergunta para a Jennifer o que foi fazer este festival. Foi bem difícil. Muito difícil! Custou a ela trabalho, mas custou a ela muita dor também, muito sofrimento. Mas ela não desistiu. Por quê? Porque tem que fazer. Porque vocês mereciam que se fizesse. Vinte pessoas que ela não sabia quem seriam viriam pra cá e sair daqui com outra experiência. Então é a mesma coisa que vocês tem que praticar. A música de câmara é essa possibilidade. É nisso que ela é melhor que a música sinfônica. É nisso que ela dá para vocês uma coisa que a orquestra nunca dará. A orquestra vai fazer que vocês se acomodem. Essa música aqui vai fazer com que vocês pensem. Com que vocês desabrochem. Com que vocês sejam incômodos. Vocês têm que ser incômodos! Não podem ser cômodos! Gente cômoda é chata. Muito chata! A gente tem que incomodar. Senão a gente passa em branco. Vem para o mundo e – veio, passou por aqui? Nem vi...

Eu acho que esta música vai ajudar vocês a serem isso – incômodos. Sejam incômodos. Em todo lugar. Se você não incomodar as coisas não vão mudar. E os outros ficam de olho e dizem – Se ela mudou, por que eu não posso mudar? É assim – é contágio!